domingo, 15 de setembro de 2013

O toque de Deus



Existem momentos em que não conseguimos explicar, nem expressar verbalmente o que está acontecendo com a gente. Por exemplo: Eu (Dilson Paiva) sempre utilizei o Blog “Bússola Literária”, e o site "Sentinela Cultural", para publicar além dos meus próprios textos, de autores consagrados, ou de outros ainda desconhecidos - em fase de iniciação -, tanto da literatura brasileira como de outros países. Desde que, achasse que teria um público expectante pra ler e absorver o conteúdo de um determinado texto com orgulho. Dizendo pra si ou para os amigos: “Sei algo mais sobre...” (determinado autor – escritor).

Hoje, ao acessar a internet, lembrei-me de um compromisso com Deus. Afinal, foi Ele quem me deu tudo que sei, que faço, e construo. Foi Ele quem me aproximou de ti, quem me fez ser seu amigo, quem me deu o dom de pensar, e a virtude de ser consagrado pela sua Glória e Amor.

Então, tendo ao meu alcance, este texto que ora estou publicando, “O Toque de Deus”, em que, narra a história de um homem amargurado pela impossibilidade de pelo menos tocar, ou sentir o toque de uma pessoa. Desde a mais próxima e conhecida, a mais distante. De um homem que sentiu na alma os horrores do desprezo e do distanciamento, em decorrência da enfermidade que o acompanhava, por longos anos.

Assim, me envolvido neste sentimento, de que qualquer um pode passar, ou até mesmo, esteja passando, resolvi que havia chegado o momento de despir-me do espírito literário elitista, arrogante e seletivo para muitos escritores e estudiosos. E que, é parte da filosofia priorizada na sua postura de existência, tanto do “Bússola Literária”, como do “Sentinela Cultural”: divulgar a cultura, e levar o conhecimento literário preconizado dos nossos valores intelectuais,  para me estender as mãos a Deus e agradecer tudo que Ele já me fez e continua fazendo.

Lembrei-me também, de Chico Buarque na sua canção “Gente Humilde”, que já, no seu início diz assim: “Tem certos dias, em que eu penso em minha gente, e sinto assim, todo o meu peito se apertar. Porque parece que acontece de repente, como um desejo de eu viver, sem me notar igual a como, quando eu passo no subúrbio, eu muito bem vindo de trem de algum lugar. E aí me dá, como uma inveja dessa gente, que vai em frente, sem nem ter com quem contar...”
Esta é a minha proposta para esta publicação, cuja qual, eu recomendo sua leitura. Jesus disse: “O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” (João 6.37).


O toque de Deus
Texto: Max Lucado (adaptado de “Simplesmente como Jesus”)



Certo dia, durante a colheita, observei que a minha mão estava mais fraca ao segurar a foice. As pontas dos meus dedos haviam se tornado insensíveis. Não disse nada a minha esposa, mas sabia que ela suspeitava de algo. À tarde, em casa, mergulhei minhas mãos em uma bacia com água a fim de lavar o meu rosto. A água tornou-se vermelha. Um de meus dedos estava sangrando, e sangrando livremente. Eu nem mesmo sabia que me havia ferido. Teria sido com uma faca? Mas eu não tinha sentido nada. “Sua roupa também ficou suja”, minha esposa disse com voz meiga. Ela estava atrás de mim.

- Devo ir com você dizê-lo ao sacerdote? – Ela perguntou.

- Não – Suspirei profundamente. Irei só.

De alguma maneira, eu sabia que minha vida estava sendo alterada para sempre. Voltando meu olhar para ela, contemplei as lágrimas em seus olhos. Ela tocou meu ombro e a minha mão sã, e eu toquei as suas mãos. Seria o nosso toque final.

Cinco anos se passaram, e ninguém havia me tocado desde então, até hoje. O sacerdote não me tocou. Ele olhou para minha mão, agora envolta em trapo. Olhou para o meu rosto, sob as sombras da tristeza. Cobriu sua boca e, estendendo sua mão com a palma para frente, disse-me: “Você está imundo”.

Não o culpo por nada; ele apenas estava cumprindo a lei. Com apenas um pronunciamento, perdi minha família, minha fazenda, meu futuro, meus amigos.

Minha esposa encontrou-se comigo nos portões da cidade com um saco de roupas, com pão e algumas moedas. Ela não falava. Agora os amigos tinham compreendido. Eu era um leproso. Aquilo que eu tinha visto nos olhos deles era uma antecipação do que passei a ver em cada olhar a partir de então: uma mistura de compaixão e medo. À medida que eu dava um passo para a frente, eles davam um passo na direção contrária. O horror que sentiam a respeito de minha doença superava a preocupação pelos sentimentos do meu coração. A partir daquele momento todos davam um passo para trás.

Cinco anos de lepra deixaram minhas mãos torcidas. Já não tinha mais algumas das pontas dos meus dedos. Quantas noites agitei meus punhos aleijados em direção ao silencioso céu: “O que é que eu fiz para merecer isto?” Mas nunca tive uma resposta. Algumas pessoas pensavam que eu tinha pecado. Tudo aquilo me cansava muito: dormindo numa colônia de leprosos, sentindo o mau cheiro, usando um sino pendurado em volta do pescoço para alertar as pessoas sobre a minha presença. Bastava apenas um olhar e os gritos começavam: “Imundo! Imundo! Imundo!”

Durante cinco anos ninguém me tocou. Ninguém. Nem minha esposa, nem meus filhos, nenhum amigo. Eu podia sentir amor na voz dessas pessoas quando se dirigiam a mim. Porém, eu não podia sentir o toque delas. Eu desejava ardentemente algumas coisas comuns: aperto de mão, calorosos abraços, um tapinha nos ombros, um beijo nos lábios para alegrar um coração... Esses momentos foram arrancados de meu mundo. O que eu teria dado para que alguém esbarrasse em mim, para que pudesse estar apertado em meio a uma multidão...

Mas durante cinco anos isso não aconteceu. Como pode ser isso? Não me era permitido caminhar livremente pelas ruas. Mesmo os rabinos mantinham distância de mim. Não me era permitido nos cultos na sinagoga. Não era bem-vindo nem ao menos em minha própria casa. Eu era intocável. Era um leproso. E ninguém me tocava. Somente até o dia de hoje.

Há várias semanas ousei caminhar pela estrada que me leva à minha vila. Eu não tinha a intenção de entrar. O céu sabia que eu queria olhar novamente os meus campos, contemplar o meu lar, e ver, quem sabe, a face de minha esposa. Vi algumas crianças brincando em um gramado. Escondi-me atrás de uma árvore e fiquei observando como corriam e pulavam. Suas faces eram tão alegres e seus sorrisos tão contagiante que por um momento senti-me como se não fosse mais um leproso.

Tinha ouvido alguém falar de um homem. Ele chamava-se a si mesmo de Filho de Deus. Decidi encontrá-lo. “Ele ouvirá as minhas queixas e aceitará a minha súplica. Ele me curará”. Esses eram os meus pensamentos. Até que um dia eu o encontrei. Por detrás de uma rocha, vi quando Ele desceu uma montanha. Uma multidão de pessoas o seguia. Quando estava apenas a alguns passos de mim, saí detrás da rocha. Então eu o vi, face a face. Não sou capaz de encontrar palavras para descrever o que vi.  Ao olhar para Ele uma pessoa é capaz de esquecer o calor do dia anterior e as feridas do passado.

“Mestre!”, disse. Ele parou e olhou em minha direção, como também dezenas de outras pessoas. Braços se agitavam em frente a rostos assustados. Crianças escondiam-se rapidamente por detrás dos pais. “Imundo”, alguém gritou. Todos deram um passo para trás, exceto Ele. Ele deu um passo em minha direção. Cinco anos atrás minha esposa deu um passo em minha direção. Ela foi à última pessoa a fazê-lo. Agora Ele o fez. Eu não me movi. Apenas disse: “Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo”.

Se Ele tivesse me curado com uma palavra, eu teria me emocionado. Se Ele tivesse me curado através de uma oração, teria me alegrado. Mas Ele não ficou satisfeito por apenas falar comigo. Ele se aproximou, e me tocou. Há cinco anos minha esposa me tocou. Ninguém mais me tocara desde então. Até hoje. “Quero”. Suas palavras foram tão amorosas quanto o seu toque. “Sê limpo!” Seu poder inundou meu corpo como água através de um campo arado. Num instante, senti calor onde outrora havia entorpecimento. Senti força onde antes tinha atrofia.

Se antes eu só conseguia enxergar as coisas na altura de seu cinto, agora meus olhos contemplavam sua face. Sua face sorridente. Ele colocou as mãos sobre a minha face e trouxe-me para tão perto de si que eu podia sentir o calor de sua respiração e ver seus olhos úmidos. “Não o digas a ninguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote, e oferece a oferta que Moisés determinou, para que lhes servir de testemunho”.

Então é para lá que estou indo. Mostrar-me-ei ao meu sacerdote e o abraçarei. Mostrar-me-ei à minha esposa e a abraçarei. Tomarei minha filha em meus braços e a abraçarei. Nunca esquecerei daquele que ousou tocar-me. Ele poderia ter me curado, através de uma palavra. Mas Ele quis fazer mais do que me curar Ele quis me honrar, dar-me dignidade para que eu tivesse um nome. Imagine isso... Indigno do toque humano, mas digno do toque de Deus.


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Imagens: Google Image